Aos tempos perdidos em construções e lamentos, a vida de sofrimentos a havia moldado, sem dor nem ressentimentos. Era impiedosa, como o árido tempo, como a sorte daqueles que vivem de lamento, fastigando a dor longe daquilo que dá prazer e desconsiderando toda e qualquer forma de fomento. Agora, ela se perdia, escondida, tirada, vazia. Como nunca jamais se sentira, a sua história maligna, agora pesava sobre seus ombros, em simples ardor languidescente, no desejo nunca correspondido.

Totalmente estrebuchada; rasgada… Numa escura sala isolada do tempo, a moça chorava, chorava, chorava, como se esperasse por sua liberdade, ou que tivesse vida em cada choro, cada lamento. Se assim não fosse, se sentiria perdida, vazia,  morta. E tudo quanto ouvia não passavam de grunhidos de ratos que a permeavam de sua urina. Alguém entrou. Energúmeno, gritou:

-Pare de choramingar sua vadia! Aqui você tem tudo que precisa pra viver… Casa, comida e roupa. Tem até espaço pra escrever suas merdas! Em troca, recebemos o quê??? Apenas choro, soluço e lágrimas.

Ele a acertou um grande tapa.

A moça, fatigada pelo local insalubre, fraca pela alimentação torpe, sombria pela fraca luz, carcomida pelos vermes interiores, deprimida por ter perdido a liberdade, não conseguiu revidar a altura. Apenas olhou bem firme nos olhos dele e disse, com uma voz bem estranha, totalmente transfigurada daquela que ela miava chorando pelos cantos:

-Não adianta, velho, você não vai me foder. Minha alma é impiedosa com meus inimigos e minha espada está pronta pra matar você.

Ela apenas olhou-o. O senhor começou a sentir um desconforto na garganta… Gritou aos seus 3 filhos: “venham! Amarrem ela já!” Foi o que fizeram. Trancaram-na no porão novamente. Ela, enquanto isso, ria estrondosamente. O ancião, ensimesmado com aquela dor, pensando em seus botões… Foi direto ao médico. Diagnóstico: câncer na graganta, do tipo maligno, já que o benigno, não doía. Internado. Dois ou três meses depois, morto.

A imagem que assim se via, atraía a atenção de multidões. Era algo estampado nos céus, compactuando com trilhares de visões apocalípticas feitas pelos séculos. Sentiam-se desconfortáveis enormememente Com aquilo. O que era? Vida? Morte? Solução? Destruição? Alucinação? Realidade? Ninguém sabe. Fica apenas a imagem.

Andava tranquilamente por aquele dia frio, de começo de inverno. Seu nome? Castor; sua idade? 31. Os tempos de estudo fizeram daquele jovem senhor um cético inveterado, um homem de ciência, que negava a tudo que não tivesse comprovação exata pelos cálculos da sua idolatrada matemática e a descrição de alguma das ciências da matéria. Era ateu por convicção, já que não poderia deixar-se enganar pelos contos que eram trans mitidos de geração em geração, julgando-se inteligente o suficiente para desdizer a existência divina ou espiritual.

Enquanto caminhava, avistou, do meio daquelas casas entrelaçadas coisas que ficaram marcadas em sua mente impolutamente experimentada. Ouviu um gemer estranho, como se um pequeno gato ou algum bebê – afinal, de longe ambos os sons se tornam quase de indecifrável diferença- chorasse por comida, proteção e carinho. Mas, quanto mais andasse por aquelas ruas estranhas, daquele local totalmente desconhecido, o qual tinha escolhido se meter aquela tarde fria e cinzenta – ideal para que as coisas estranhas acontecessem – mais aquele barulho aumentava sua intensidade e menos coisas ele via.

Encontrava-se perturbado. De onde aquele barulho vinha?! Olhava por todos os lados e corria em frente, como se correndo para se afastar de algum provável sótão esquecido embaixo de alguma calçada, ou então, como se querendo se aproximar do ruído para ver o que estava acontecendo para resolver de uma vez aquela situação. O que era mais interessante é que corria, corria, sem direção, sem destino; nada encontrava, nada! E mais e mais se desesperava, temendo ter-se tornado algum esquizofrênico. Mas, pelo que temer, se louco era, que procurasse um médico! Ele resolveria.

No entanto, seu andar em frente contínuo levou-o à um pictórico local perdido no meio de uma enorme cidade, como aquela: Uma rua de terra; um casarão de madeira velha; um pequeno cemitério ao lado esquerdo de Castor; uma pequena capela, ao direito. Os gritos tornavam-se agora, muito mais do que altos, mas ensurdecedores! Tão nítidos que se os outros ao seu redor pudessem escutá-lo também estariam desesperados. Era uma voz feminina, de uma moça de aproximadamente uns 20 anos, que dizia o seguinte:

- Ó senhor, que me prendeste! Por que és ignorante a mim? Que te fiz? Alguém me salve! Me salve! Me salve por favor!

E a moça caía em prantos, de uma dor roída, decabida e desenfreada. Era como se Castor sentisse aquela mesma dor. Era como se fosse inútil lutar, até porque tentou chamar as pessoas que passavam por ele, nenhuma dava-lhe atenção! Que horror! Estava indignado com aquilo. Ele, um senhor, um virtuosi social, sendo ignorado! Fosse certo que suas capacidades mentais eram duvidadas pela população geral, sempre muito crédula do que para ele eram superstições, mas para esse povo, eram verdades inestimáveis. O fato, porém, é que conseguira muito dinheiro trabalhando duro, ao melhor estilo protestante, ‘poupar para ter; o que plantai, colhei’. E, por isso, era deveras respeitado pela alta sociedade, que não via nas opções filosóficas um motivo claro de dissociação de poder. Para ela, apenas uma coisa conta e sempre contará: o valor de um retângulo em papel especial, com um número impresso e os selos republicanos, real ou virtual, prontamente, senhor.

Mas, ser ignorado! Quanto desespero ele tinha por tal fato. Lembrava-o de sua infância. Quando, por ser uma das crianças mais escondidas de seu grupo social, por se dedicar de maneira prodigiosa aos estudos conseguia notas sempre muito superiores dos que as que seus colegas comuns sequer imaginavam, por isso, sendo isolado da turma. Talvez, aí começasse a sua descrença. Afinal, toda a relação que ele conseguia conceber tinha uma ponta de hipocrisia, (nota por amizade, depois, mais pra frente, dinheiro por amizade), que ele jamais conseguiu entender como os seguidores de alguma determinada religião conseguiam seguí-la honestamente fazendo amigos lá e, sem interesse. Para ele, jamais isso existiria e sempre conseguia enxergar alguma corrupção, por mais que fosse ver ‘chifre nas cabeças de cavalo’.

Esses pensamentos giravam pela sua cabeça enquanto adentrava ao casarão. Tinha de se certificar pois o som se tornava cada vez mais forte quando tentava se aproximar daquele local. Não conseguia ouvir mais nada. Seus tímpanos talvez já estivessem quase estourando. Aquela onda sonora atingiu o limiar da dor. Era-lhe tão penoso tal fato que sangue começou a verter dos seus ouvidos. De ambos. E não se continha em simplesmente tentar localizar a moça, mas gritava enlouquecidamente de dor e se atrapalhava derrubando todo mobiliário coberto da casa abandonada.

Até que uma hora, tudo silenciou. O céu tornou-se negro, preparando-se para uma enorme tempestade. A voz que tornara-o surdo, começou a falar suavemente, como se saída de dentro de sua mente:

- Olá, Castor! Olhe pra trás.

Ele olhou. Sentiu todos os seus nervos de uma vez só. Eles alertavam-no para que aquilo não era natural. Sua maldição estava apenas começando. Perdeu a audição aquela tarde, a audição para tudo que fosse material. E agora começava a tentar achar coragem para cegar a si mesmo. Era uma visão horrível: uma moça, de tez amarelo-enegrecida, com os ossos a mostra, aparecia pela janela flutuando. Ela chorava, amarrada de braços abertos ao que parecia ser um enorme cabide. Estarrecido por aquela visão, ele tentava achar forças para falar com aquela entidade, se é que houvesse um meio, se é que tudo não passesse de produto de sua fértil imaginação.

Claro que não era de todo covarde: uma hora, toda a coragem existente dentro de si aflorou e Castor conseguiu proferir as seguintes palavras ao ser que permanecia imóvel:

- Q-quem é-é v-você? – Gaguejava suando frio. Como alguém que realmente tinha culpa no cartório…

-Oras, papai! Como você não se lembra de mim?! Sou sua filha… Ahh, é claro, você nunca se importou comigo. Fui filha de um incesto, sendo abortada pela sua prima. Você nunca soube de minha existência.

Ele estava atônito: quando tinha 11 anos, havia sido praticamente abusado diariamente por sua prima de 16 anos – Catarina- quando viveu com seus tios, dada a morte de seus pais, por um período de um mês, logo da sua chegada. Jamais sequer sonhara que sua prima tivesse ficado grávida dele naqueles tempos, muito menos, abortado. A moça continuou:

- Agora, eu vim cobrar meu direito de viver. Já estive muito tempo na morte. Muito tempo… Você nem faz idéia como é frio o inferno. E como sentimos as mesmas dores de quando morremos. E, imagina eu?! Que fui morta por um cabide! Abortada de maneira irracional… Certo que você não tem culpa… Mas, você jamais parou pra agradecer seus tios pela estadia, ou então para tentar impedir sua prima de te amarrar e de te usar… Né papai?

Aquele muy digno senhor de meia idade, caiu de cócoras e começou a chorar, feito uma criança. Ele, sempre um descrente de tudo, não conseguia conceber tal situação sem que se autodiagnosticasse loucura. No entanto, quando percebia que nada mais escutava além da amarga voz de sua filha do outro mundo, tinha a constatação de seu erro. Tomou a coragem para perguntar:

- Mas, por que veio até mim? Não sou culpado direto pela sua morte, como você mesma reconhece…

- Oras papai?! Não se percebe quando está morto não? Não estranhou que ninguém mais lhe respondia? Volte agora para a sua casa, veja! Vasculhe por tudo… Mas, olhe com atenção redobrada a sua cama. Veja seu corpo jazendo lá. Eu fui incumbida de te levar ao Tribunal. Apesar de ter cometido o maior dos maiores crimes desse mundo – negação divina – acho que sua pena será apenas a perda de todos os sentidos. Você tem sorte. Há alguns daqui que acabam por ter o fim que os ateus esperam para si mesmos: a destruição eterna.

Proecedeu como indicado por sua filha… Andou até seu lar, observou a tudo atentamente. Com muito esforço, conseguiu ver seu corpo morto, jazendo semi-nu na cama. Então, voltou ao casarão. Foi lá ter com sua filha, que lhe indicou o caminho ao outro mundo, lá onde outro espírito o levaria. Bastava a ele, um pouco de fé. Talvez ficasse vagando por toda a eternidade, ou até reencarnar, sem seus sentidos e totalmente desfigurado.

Eis, que me pego em sono. De um sono profundo onde as coisas mais fantásticas podem acontecer. Converso com minha bela pelo computador, seu rosto começa a se projetar lentamente a partir de sua foto, mas vem em tamanho real… É um sonho: viagem instantânea!

Eis que ela vem e vem, mais e mais perto. Aqueles olhos certos, a boca úmida e languidescente, Respiração afoita e um desejo incomensurável de partir para… Bem, isso não te importa leitor. O que mais me espantou, é que ela como assim que veio, voltou. Sonho meu, de assonância, que se perdeu e se obliterou. Bela, bela, te espero e te quero com toda força de uma paixão que ainda não vingou…

Hmmm… Como?!

E aquele ser observava a todos com um ar de superioridade, ainda que girasse inconscientemente. A sua vitória, parecia que ainda viria.

O céu, com um pouco de antipatia, parecia começar a mudar. Uma chuva vinha, aliás, uma chuva não apenas: uma enorme tempestade de raios. Algo sem paralelos anteriores na história daquela humilde cidade, que parecia mais um pobre vilarejo do que qualquer outra coisa. As pessoas começaram a correr Desesperadas para as suas casas, com o objetivo mais que humilde de se proteger do que viria.

Alguém, perdido na multidão, resolveu jogar uma pedra naquele mendigo maluco no intuito de que parasse de girar afinal. Mas a pobre pedra simplesmente se fragmentou. E o que aconteceu daqui em diante, fez com que a boca temerosa que me contou tais fatos, não quisesse se identificar….

Aquele ser parou então de girar, seu corpo, parecia ser mais leve que o ar. Caiu exausto, no entanto, levitou, levitou como Emily Rose fazia enquanto dormia, segundo os relatos e o filme. Como se uma força maior houvesse se apoderado dele. Começou a gritar do nada… Como se desse ordem ao mundo natural ao seu redor, porém, suas palavras eram inteligíveis! As primeiras coisas que se ouviu dizer pela multidão e que se distinguiu foram:

-Chuva, pare! – e ao mesmo tempo a chuva parou.

As pessoas olharam abismadas àquele ser… Era algo que eles jamais haviam visto antes. Seria o fim do mundo? Talvez fosse pior: estavam mortas no inferno e não sabiam que aquele era o diabo? Bem, ainda poderia ser alguma daquelas alucinações coletivas, atestando que a água da cidade fora envenenada e que as pessoas poderiam morrer a qualquer instante.

No entanto, uma voz atrás de uma tela falou calmamente, algo que foi repetido pelo ‘girando’ (já que não tinha nome, chamá-lo-ei assim.). Os dizeres eram: (e disso o(a) interlocutor(a) anônimo tinha certeza, pois havia transcrito o texto).

- Oh cidadãos da pacata Vila Poiá ! Vim aqui vos pedir humildemente o controle de vossa vila para que possamos passar por isso sem guerras. Quero, um exército, um bom exército, para que entremos em guerra contra os senhores do mundo. Quero que compreendam que essa é o único modo de salvação de vocês, caso contrário, todas as pragas do mundo, que estão sob o meu controle, cairão sobre vós. Não esperem por piedade: sou quase uma divindade; e, vocês são apenas pobres vermes, esperando pela morte que virá impiedosa e imortal para levá-los. Unam-se a mim e conheçam uma vida de glórias, lutem contra mim e sua história será desastrosa!

Automaticamente, os cidadãos desprendidos da razão que antes lhes eram inerentes, hipnotizados por aquela loucura, saíram de suas casas e se dirigiram até o local daquele ser estranho. Abriu-se espectro no horizonte, uma espécie de passagem. Não se sabe, na verdade, para onde ia. Uma ruptura no tempo e espaço, pelo qual toda a população passou. Menos quem me contava isso.

Perguntei-lhe então sobre como teria ficado livre daquilo. Assim me respondeu:

- Olha, se soubesse, gostaria muito de compartilhar com todo o povo, para que ele não volte e não faça isso novamente. Aquele ser me pareceu um monstro sob as carnes humanas… Aliás, que talvez nem sejam humanas!

-||-

Fui há algum tempo atrás da tal vila. A encontrei e não havia sequer sinal de desertificação. Perguntei sobre o tal demônio que girava. Ninguém queria comentar sobre tal fato. Até uma senhora, de idade bem avançada, começou a dizer:

- Na verdade, houve um maluco que disse ter visto algum demônio rodopiando pela praça da cidade. Mas ninguém de fato o viu. Disse também que aquele ser não era desse mundo, que tinha levado todo mundo para o inferno… Um monte de baboseiras desse tipo. Essa pessoa foi expulsa daqui e hoje vaga pelo mundo contando essa falsa história, que parece ter sido análoga a um seriado desses que passam pela madrugada.

introdução

Era escuro. Mais um daqueles dias chuvosos nos quais se faz questão de sobreviver de olhos fechados afim de a paisagem não nos tente para que o a morte é capaz de fazer. Nesse espaço cinzento, convidativo para uma das canções de Agalloch, alguém girava o corpo sobre seu centro de gravidade, numa velocidade relativamente baixa. Girava toscamente. Aos olhos das outras pessoas, talvez uma criança girasse mais rápido e mais eficientemente que aquele sujeito.

Vestindo com um kimono samurai, usando cabelos longos e numa cor indefinida, causava risos para todos os que passavam ali naquele exato momento. Mas ele não ligava. Como se algo o chamasse, talvez sua repulsa pelo bem-estar social ou algo mais específico. Talvez fosse esquisofrênico e as vozes que acompnhavam o mandassem executar tal ato vexatório para si mesmo, de maneira tal que assim elas o deixariam em paz, não o ferindo – sequer o matando. E caiam na gargalhada todos que por ali passavam.

Sabe-se que a esquizofrenia é caracterizado por uma lesão no cérebro, que não é me dada lembrar exatamente em qual parte do órgão, mas seja lá qual for, não se pode desconsiderar que mesmo se sabendo o tratamento, mesmo sabendo-se o que a causa, a ’saúde’, não chegou a todos. Quando chega, na verdade é uma pseudo-saúde, pois sempre há o eminente perigo de se ficar doente, ainda mais abafando outra doença… Isso, no entanto não vem de encontro ao caso.

O que importa é que aquele mendigo estranho não parava de rodopiar. Aos poucos, no entanto, algo foi-se acontecendo. Não se sabe o nome dele, nem qual o país de origem, sua língua, no entanto, parecia ser num dialeto incompreensível aos ouvidos de qualquer ser humano cuja linguagem seja uma descendência latina. Ele parecia cantar aquilo, como se fossem versos, versos de alto piedade ou de tristeza, versos como de oração. E assim foi indo, passavam as horas, aumentando a frqüência dos giros, acompanhado pelo aumento de sua velocidade angular, em um movimento circular parcialmente uniforme, que só não poderia ser assim considerado devido aos paralelepípedos naquela rua. Afinal, estava-se no final do século XIX, início do XX e eles não tinham sequer noção bem definida de uso de hidrocarbonetos.

Aquela atmosfera, fria. Poucas pessoas na rua, o céu cada vez mais encoberto, as folhas voando aos poucos. Como se dançassem ao som daqueles versos entoados, ao sentido do vento que soprava a partir da energia desprendida naquele movimento….

- Não! Que horror! – Uma pequena camponesa que ali passava, gritou. As veias do nariz daquele sujeito haviam acabado de ser rompidas. Começou a esvoaçar sangue por todo o raio da circunferência formado pelos seus braços abertos, mais até o alcance de aproximadamente uns 5 metros. A quantidade de sangue começou a aumentar vagarosamente, como se a quantidade daquele líquido fosse aumentando aos poucos… Em uma macabra projeção aritmética.

As impressões desse mundo de pessoas que já se perderam e, provavelmente, não poderemos ver novamente – ao menos não daquela forma – é um assunto que vem sendo abordade desde tempos imemoriais pelos pensamentos humanos. Matia, sujeito novo, acabado de ser apresentado ao mundo adulto – no qual tudo ocorre de maneira impiodasemente rápida – vivia um grande constrangimento ao se perceber de certa maneira influenciado pelos hábitos de seus ancestrais já mortos.

Em uma das minhas andanças por este infinito mundo de Deus, contratei os serviços desse guri como guia, para que pudesse tirar o máximo proveito das frias e solitárias regiões do Sul, sem me perder. Acordava sempre cedo, como seus pais e avós sempre fizeram; comia nas horas regulares, montava e corria pelos campos pastoreando as ovelhas nos campos da divisa entre o Brasil e o Uruguais nos confins do Sul do país. Naturalmente, gostava de sua erva nos horários regulares, usando também sua roupa típica. No entanto, seu principal problema eram os estranhos fatos que estavam ocorrendo consigo.

Cavalgava em círculos e cantarolava antigas canções em um misto de castelhano, tupi e brasileiro, que não se poderia compreender exatamente quais as pretensões de tais versos. O que importa, porém, é que se apercebia uma musicalidade, um tanto quanto mágica, por isso mesmo, perigosa aos ouvidos de quem as ouvisse. Talvez o leitor já tenha ouvido falar das experiências do sr. Emoto, que, infelizmente, jamais puderam ser repetidas… Se caso não, aqui vale uma breve explicação: Emoto conseguiu mostrar que a conformação geométrica da água podia mudar de acordo com os fonemas entoados pelas pessoas ao redor daquela água. E, pelo visto, aqueles sons entoados pelo guia da nossa excursão – afinal, não estava só! – não digo ter despertado meu medo pelo desconhecido, talvez sim, desorganizaram de tal maneira cada partícula d’água, que aquele caos presente foi contagiando todas as moléculas de meu corpo, até que essa sensação fosse decodificada pelo meu cérebro como medo, desespero. Um medo e desespero profundos que poucos poderiam sequer imaginar.

Pensei em voz alta durante o sono:
- Não, não pode ser! Esse demônio não!

Minha digníssima esposa, V. xx anos , que dormia ao meu lado na tenda armada pela noite, para nosso descanso, me acompanhado no mergulho à solidão que me nos convidava a mais humilde e grata reflexão, na mesma hora acordou e me despertou também. Sentia-me atordoado. Não sei desde quando me sentia assim, talvez somente apenas num período de provas durante o Ensino Médio, quando tudo começou a dar errado, ou ao menos eu tinha aquela sensação. Como se eu fosse menos que nada. Bem, de que isso importa?! Naquela época a conheci.. E tudo se melhorou afinal. No entanto, aquele atordoamento erade tal maneira indiscritível que me fez refletir anos e anos após aquela experiência; tanto que até hoje não sei de fato o que se passou. Ela, sempre me apoiando, queria porque queria saber com o que havia sonhado. Disse-lhe que não me lembrava exatamente e que apenas um borrão de tudo que se passou pela minha mente havia ficado (era exatamente como estava – jamais mentiria a minha esposa…)

O frio era grande aquela noite de inverno. No outro dia, tão logo amanhecesse, mui provavelmente veríamos grande formações de geada, campos outrora verdes, agora, desmistificados da sua aparência mesquinhamente saudável, cobertos com uma película de gelo que não apenas matava algumas folhas, mas também mostrava o espírito do inverno: branco, morbidamente belo e revelador das grandes verdades das pessoas entre as pessoas. A grande Lua no céu, com as estrelas em sua companhia, ajudavam ainda mais a melhorar a situação, sendo aquela uma noite bastante atrativa para o amor…

Sim, se você pensa que esse conto enveredará pelos lados negros da lascívia e devassidão se enganou. Enquanto V. e eu executávamos o ato mais nobre e natural que um casal pode fazer, percebi que algo estranho era entoado além da sifnonia harmônica dos gemidos dela. Era como se alguém conversasse consigo mesmo, em voz alta. Ou pior, como se houvesse uma pessoa imitando a voz de outra pessoa, para que pudesse se sentir menos só, tendo assunto consigo mesmo. Ao término do ato, nos vestimos e fomos calmamente verificar o que era. Afinal, ninguém ali tinha medo, ou propensõe à loucura. Talvez fosse, pensamos, alguns bêbados perdidos, ou algum povo indígena das vizinhanças, que nos eram simpáticos, dando algumas recomendações.

- Olhe, olha isso! Que horror?! – V. nesse momento caiu desfalecida, de tamanho horror pelo que vira.

Nem sei como descreverei exatamente aquilo. Matia estava se contorcendo e debulhando o chão, se esfregando no mato alto do pampa e falando uma linguagem incompreensível a qualquer ser humano comum. Poria minha mão no fogo se acaso alguém sequer descobrisse de qual língua se tratava sem usar de tecnologia. O que mais intrigava era que os braços e as pernas do pobre coitado estavam a escorrer sangue. Um sangue estranho, grosso, parecendo já cuzido, como o de chouriço. As palavras entoadas pareciam compassadas apesar de estranhas; naquele cadenciamento, ao menos havia um certo ar de musicalidade e teatralidade, sendo executada a voz em todos os timbres e acordes possíveis. Os góticos iriam adorar aquela cena.

Eu, que nunca fui médium, dado a visões ou coisas do tipo. Um sujeito normal e saudável, que procurava o sobrenatural, não uma forma de resolver os problemas egoístas, mas de tentar ajudar o mundo, jamais poderia ter visto algo como aquilo. Milhares de pessoas se amontoavam ao redor dele. Todas com algum problema, gritavam e batiam em seu corpo. Porém, as batidas pareciam não proceder: até porque não havia ferimentos graves que estivessem escorrendo sangue. Após uma melhor apuração visual, acomodando melhor as visas ao ambiente, percebi que aquele material que ’saía’ de seu corpo, era na verdade terra puxada de baixo da relva e que era jogada por si mesmo em seu corpo.

Fui tentar ajudar. Cheguei mais perto… fui me aproximando pra tentar segurá-lo, ou então chegar a uma distância segura a tentar a conversação. Estávamos em campo aberto, ele se encontrava a mais de 200 metros de distância do acampamento. Conforme fui tentando me aproximar (após ter acomodado V. na tenda…) ele parecia se afastar mais e mais. Aquelas figuras grotescas segurar e puxar o cara conforme eu tentasse chegar mais perto. Como se sugassem a força vital de seu espírito e não quisessem compartilhar (como se eu pudesse fazer isso?!). Uma hora eu desisti de ir-me em frente: o temor em deixar minha amada só na tenda, acrescido pelo meu próprio medo em ser atingido por tal, me fizeram retornar.

No outro dia, ensolarado, branco e gelado, acordei. V. estava bem e sorridente – Graças a Deus. Ela havia tomado aquilo tudo como um sonho grande pesadelo e não parecia por tal amendrontada. Eu não falva nada sobre o assunto: melhor assim! Que ela possa ser feliz, sem se preocupar com os anseios e aflições da alma.

Em contrapartida, minha curiosidade natural falou bem mais alto. Quis saber o porquê daquilo tudo e fui perguntar a Matia o que inferno havia se passado. Ele, com um sorriso no rosto começou a me responder de maneira calma e resoluta:

- Há muitos anos, nos tempos em que os avós de meus avós viviam livres da civilização moderna, uma das minhas antepassadas, dizia meu pai, era a mais bela índia da tribo. Uma flor de pessoa a quem todos queriam bem. Seu pai, no entando, era o pajé responsável pela manutenção da saúde da tribo inteira. Um homem sábio, que conhecia bem as plantas e suas propriedades…

-Seja mais breve, guri! – Interpelei. Apesar de escutar com tremeenda atenção, precisava sair fotagrafar aquele magnífico cenário o mais breve o possível. Quem sabe as fotos obtidas por prazer, não pudessem valer algum dinheiro pra ajudar nas rendas, não é mesmo ?

- Está bem. Estou tentando. Então, aquele pejé, também meu antepassado, foi amaldiçoado por toda a tribo, acaso deixasse sua filha morrer muito jovem ou se casar com alguém fora da tribo.
E, nesse interim, chegou homem branco lá da Europa. Veio trazendo doença, fome, guerra, destruição. E, aquela moça, se apaixonou por um rapaz recém chegado de além mar. Claro o pajé a proibiu. Só que a tribo teve azar muito grande: junto com o branco, veio também a gripe e onte de peste. dizimou metade da população. Nessa altura, como boa parte dos guerreiros já tinha ido embora, ver-se com Tupã, a moça escapuliu e se ajuntou como branco. Mas, como todo mundo, ela também morreu jovem e de peste. Ou seja, meu ancestral foi amaldiçoado duas vezes. Como a maldição deles durará até o Grande Dia que Só Deus Sabe, os descendentes dele sofrem o castigo até hoje, dessa mesma maneira como o senhor viu. sabe o que é o pior? É que mão há como remover e toda manhã me sinto um caco: eles me importunam todo dia.

Relatado o que vi e ponho fé que seja real
Obrigado, sr Novale

Extraído de: http://alemdq.blogspot.com/2008/04/carta-de-relato-loucura-do-guia.html

Certa vez, pôs-se a pensar e conjeturar sobre um mundo que talvez não existisse. Seus modos indiciavam que não era bem visto por ninguém. Esse perdido, aturdido sujeito pelos pensamentos mais esquisitos, extravagantes, novos, até mesmo bem construídos e bonitos, não conseguia de maneira alguma se desvencilhar da observação clara, serena e contemplativa de um lago que se encontrava em frente ao lugar destacado, que parecia ser posteriormente sua residência. Seu nome, se perdeu com o tempo, mas a sua história permanece como um alento. E portanto, pouco importa se sou eu quem se põe em seu lugar ou qualquer outro fulano que se possa imaginar.

Não havia maneira de consolá-lo: afinal, as coisas haviam mudado muito… O tão amado lago daquele lugar, antes incolor, transparente havia sofrido um decréscimo enorme de qualidade. águas turvas, espumosas e mal-cheirosas se criaram ali. Era um mundo novo, o qual não tinha o direito de entender. Não se sabia de onde vinha, é bem verdade, porém o seu grau de confusão absoluto se mantinha.

Em meio a tal marasmo, algo quebrou todo o sossego daquele lugar: um grande estrondo. Olhamos aos céus e, do nada, algo se abriu, como se engolindo a terra. Num lugar como aquele, no qual andamos no céu e contemplamos a terra, as pessoas se mantiveram pensando o que aquilo poderia significar. Tolas suposições supersticiosas ao nosso humilde entendimento. O fato era que aquele ser não pertencia ao nosso mundo, ao nosso lugar. Era como se fosse de um outro lugar, guiado por um outro firmamento. No entanto, não se poderia dizer quem era, o que era, ou como se comportaria. Apenas era, apenas estava e assim se comportava, dando o máximo respaldo para que as gentes permanecessem ainda mais admiradas.

Pobres espíritos epilépticos! Pobres seres cegos! Eles não perceberam que aos poucos foram sendo engolidos, foram sendo destruídos pelo fantasma da mais ignota e cruel Desilusão?! Sim, pois é ela mesma que vai aos poucos corroendo cada um deles até que no Final dos Tempos, exista apenas alguém sentado a frente de um lago observando-o e esperando que o mesmo se despolua para que possa ser utilizado.

Um dia acordei, com algo que do nada me perturbava: Batidas na porta de um dia normal, do pobre e já conhecido entregador de jornais… Bem, ocorreu-me então a idéia insana do nada, que algo poderia acontecer a qualquer momento.

Algumas constatações óbvias sobre quem era eu já não faziam mais sentido e tudo o que eu havia aprendido até então, havia de maneira estranha se perdido. Era minha sina, meu prejuízo. Uma sensação estranha de que algo transcendente ao meu juízo poderia a qualquer momento me atingir. Aliás, não atingiria somente a mim: Todos os que estivessem ao meu redor sofreriam do mesmo cruel e nefando destino. Porém, aquietei-me enfim. Olhei pela janela, ‘que belo céu’, pensei. Nenhuma nuvem e nenhum pássaro, muito frio e todo chão, antes verde, agora branco; aquela noite havia geado, me certifiquei portanto.

Dirigi-me calmamente até a entrada de minha residência, em um local perdido no meio do nada. O primeiro fato estranho realmente me aconteceu. O povoado havia tido um explosão demográfica de um dia para outro. Olhei para cima e vi que a placa habitualmente na frente de minha casa, constando a o nome de minha rua – aliás, rua 08 – agora estava agora na esquina e tinha um nome muito estranho, um nome estrangeiro de escrita tamanho meu desespero, não consegui me lembrar.

E pessoas passando com pequenos aparelhos donde saíam melodias estranhas, que jamais havia ouvido. Aliás, jamais havia visto tais aparelhos: eram uma grande novidade que me atiçava a curiosidade e me trazia ganas de assaltar o primeiro que passasse, para que de tal tomasse posse.

Mas o que era pior, no entanto, era que ninguém conhecido – nenhum rosto conhecido! – consegui ver. Andei quilômetros e quilômetros, dentro do povoado – diga-se de passagem, ficava muito bem localizado no interior do Paraná – até que vi um senhor de idade me cumprimentar, era muito velho, de fato. Dizia ser um amigo meu de infância. Eu me sobressaltei. Disse a ele que estava exasperado com a mudança no nome da rua, com tudo o que vinha acontecendo e tudo mais. Maus pressentimentos, eu continuava. Ele então me disse:

- Oras, está velho compadre! O que mais você iria querer?

Nesse momento, tive a sensação de estar sendo chamado. Batidas na porta: o jornaleiro vinha novamente. Eu estava agora bem acordado. Foi aquilo um sonho? Não sei. Atendi-o. Olhei que a placa da rua continua no mesmo lugar, com a diferença sutil de que agora, o nome havia mudado de ‘08′ para ‘666′. Me apavorei. Corri à casa de todo mundo e a todos conclamei, avisando o fato. Com todos que conversei, nenhum deles pareceu me escutar. Pois tive um pressentimento mais que real que algo fosse acontecer.

E de fato aconteceu: até o entardecer, todos estávamos velhos novamentes. Todos! Pela manhã, acordávamos jovens, à noite envelhecíamos. Até um dia, Senti-me morrer. Morri enfim. Acordei então: era eu, nada tinha acontecido. Apenas notei uma câmera no teto de minha casa. Uns muitos doutores vieram em minha direção e me disseram:

– É senhor, seu caso é o mais grave de esquizofrenia que já vimos por aqui. Terá de ser internado por um bom tempo, até que seu distúrbio passe.

Pensamentos perdidos pelo tempo, há muito esquecidos na medina; viciados e esquecidos andavam ali, ninguém com curto senso que fosse se atreveria a chegar naquele lugar fétido, insalubre, sujo, desorganizado, escuro, enfim feio. Porém, um desavisado turista, que passava por ali descarregava suas mágoas. E de suas lágrimas, aos poucos pequenos seres foram se juntando e criando formas surreais em todos os cantos que por acaso fossem vistas.

Compreendiam a palavra do dono como se fosse a de um irmão. Morressem três ou quatro, nasciam seis ou oito. E assim iam os tempos, e esse guri começou a ficar rico e famoso. E assim iam os tempos de maneira tal que ninguém acreditaria que aquele que ele era apenas um pequeno grão no mato, pudesse chegar a tal grau de evolução e excelência no manejo daqueles seres estranhos.

Parou por aqui.
Chega disso. Esse texto tá meio malucado.