As impressões desse mundo de pessoas que já se perderam e, provavelmente, não poderemos ver novamente – ao menos não daquela forma – é um assunto que vem sendo abordade desde tempos imemoriais pelos pensamentos humanos. Matia, sujeito novo, acabado de ser apresentado ao mundo adulto – no qual tudo ocorre de maneira impiodasemente rápida – vivia um grande constrangimento ao se perceber de certa maneira influenciado pelos hábitos de seus ancestrais já mortos.
Em uma das minhas andanças por este infinito mundo de Deus, contratei os serviços desse guri como guia, para que pudesse tirar o máximo proveito das frias e solitárias regiões do Sul, sem me perder. Acordava sempre cedo, como seus pais e avós sempre fizeram; comia nas horas regulares, montava e corria pelos campos pastoreando as ovelhas nos campos da divisa entre o Brasil e o Uruguais nos confins do Sul do país. Naturalmente, gostava de sua erva nos horários regulares, usando também sua roupa típica. No entanto, seu principal problema eram os estranhos fatos que estavam ocorrendo consigo.
Cavalgava em círculos e cantarolava antigas canções em um misto de castelhano, tupi e brasileiro, que não se poderia compreender exatamente quais as pretensões de tais versos. O que importa, porém, é que se apercebia uma musicalidade, um tanto quanto mágica, por isso mesmo, perigosa aos ouvidos de quem as ouvisse. Talvez o leitor já tenha ouvido falar das experiências do sr. Emoto, que, infelizmente, jamais puderam ser repetidas… Se caso não, aqui vale uma breve explicação: Emoto conseguiu mostrar que a conformação geométrica da água podia mudar de acordo com os fonemas entoados pelas pessoas ao redor daquela água. E, pelo visto, aqueles sons entoados pelo guia da nossa excursão – afinal, não estava só! – não digo ter despertado meu medo pelo desconhecido, talvez sim, desorganizaram de tal maneira cada partícula d’água, que aquele caos presente foi contagiando todas as moléculas de meu corpo, até que essa sensação fosse decodificada pelo meu cérebro como medo, desespero. Um medo e desespero profundos que poucos poderiam sequer imaginar.
Pensei em voz alta durante o sono:
- Não, não pode ser! Esse demônio não!
Minha digníssima esposa, V. xx anos , que dormia ao meu lado na tenda armada pela noite, para nosso descanso, me acompanhado no mergulho à solidão que me nos convidava a mais humilde e grata reflexão, na mesma hora acordou e me despertou também. Sentia-me atordoado. Não sei desde quando me sentia assim, talvez somente apenas num período de provas durante o Ensino Médio, quando tudo começou a dar errado, ou ao menos eu tinha aquela sensação. Como se eu fosse menos que nada. Bem, de que isso importa?! Naquela época a conheci.. E tudo se melhorou afinal. No entanto, aquele atordoamento erade tal maneira indiscritível que me fez refletir anos e anos após aquela experiência; tanto que até hoje não sei de fato o que se passou. Ela, sempre me apoiando, queria porque queria saber com o que havia sonhado. Disse-lhe que não me lembrava exatamente e que apenas um borrão de tudo que se passou pela minha mente havia ficado (era exatamente como estava – jamais mentiria a minha esposa…)
O frio era grande aquela noite de inverno. No outro dia, tão logo amanhecesse, mui provavelmente veríamos grande formações de geada, campos outrora verdes, agora, desmistificados da sua aparência mesquinhamente saudável, cobertos com uma película de gelo que não apenas matava algumas folhas, mas também mostrava o espírito do inverno: branco, morbidamente belo e revelador das grandes verdades das pessoas entre as pessoas. A grande Lua no céu, com as estrelas em sua companhia, ajudavam ainda mais a melhorar a situação, sendo aquela uma noite bastante atrativa para o amor…
Sim, se você pensa que esse conto enveredará pelos lados negros da lascívia e devassidão se enganou. Enquanto V. e eu executávamos o ato mais nobre e natural que um casal pode fazer, percebi que algo estranho era entoado além da sifnonia harmônica dos gemidos dela. Era como se alguém conversasse consigo mesmo, em voz alta. Ou pior, como se houvesse uma pessoa imitando a voz de outra pessoa, para que pudesse se sentir menos só, tendo assunto consigo mesmo. Ao término do ato, nos vestimos e fomos calmamente verificar o que era. Afinal, ninguém ali tinha medo, ou propensõe à loucura. Talvez fosse, pensamos, alguns bêbados perdidos, ou algum povo indígena das vizinhanças, que nos eram simpáticos, dando algumas recomendações.
- Olhe, olha isso! Que horror?! – V. nesse momento caiu desfalecida, de tamanho horror pelo que vira.
Nem sei como descreverei exatamente aquilo. Matia estava se contorcendo e debulhando o chão, se esfregando no mato alto do pampa e falando uma linguagem incompreensível a qualquer ser humano comum. Poria minha mão no fogo se acaso alguém sequer descobrisse de qual língua se tratava sem usar de tecnologia. O que mais intrigava era que os braços e as pernas do pobre coitado estavam a escorrer sangue. Um sangue estranho, grosso, parecendo já cuzido, como o de chouriço. As palavras entoadas pareciam compassadas apesar de estranhas; naquele cadenciamento, ao menos havia um certo ar de musicalidade e teatralidade, sendo executada a voz em todos os timbres e acordes possíveis. Os góticos iriam adorar aquela cena.
Eu, que nunca fui médium, dado a visões ou coisas do tipo. Um sujeito normal e saudável, que procurava o sobrenatural, não uma forma de resolver os problemas egoístas, mas de tentar ajudar o mundo, jamais poderia ter visto algo como aquilo. Milhares de pessoas se amontoavam ao redor dele. Todas com algum problema, gritavam e batiam em seu corpo. Porém, as batidas pareciam não proceder: até porque não havia ferimentos graves que estivessem escorrendo sangue. Após uma melhor apuração visual, acomodando melhor as visas ao ambiente, percebi que aquele material que ’saía’ de seu corpo, era na verdade terra puxada de baixo da relva e que era jogada por si mesmo em seu corpo.
Fui tentar ajudar. Cheguei mais perto… fui me aproximando pra tentar segurá-lo, ou então chegar a uma distância segura a tentar a conversação. Estávamos em campo aberto, ele se encontrava a mais de 200 metros de distância do acampamento. Conforme fui tentando me aproximar (após ter acomodado V. na tenda…) ele parecia se afastar mais e mais. Aquelas figuras grotescas segurar e puxar o cara conforme eu tentasse chegar mais perto. Como se sugassem a força vital de seu espírito e não quisessem compartilhar (como se eu pudesse fazer isso?!). Uma hora eu desisti de ir-me em frente: o temor em deixar minha amada só na tenda, acrescido pelo meu próprio medo em ser atingido por tal, me fizeram retornar.
No outro dia, ensolarado, branco e gelado, acordei. V. estava bem e sorridente – Graças a Deus. Ela havia tomado aquilo tudo como um sonho grande pesadelo e não parecia por tal amendrontada. Eu não falva nada sobre o assunto: melhor assim! Que ela possa ser feliz, sem se preocupar com os anseios e aflições da alma.
Em contrapartida, minha curiosidade natural falou bem mais alto. Quis saber o porquê daquilo tudo e fui perguntar a Matia o que inferno havia se passado. Ele, com um sorriso no rosto começou a me responder de maneira calma e resoluta:
- Há muitos anos, nos tempos em que os avós de meus avós viviam livres da civilização moderna, uma das minhas antepassadas, dizia meu pai, era a mais bela índia da tribo. Uma flor de pessoa a quem todos queriam bem. Seu pai, no entando, era o pajé responsável pela manutenção da saúde da tribo inteira. Um homem sábio, que conhecia bem as plantas e suas propriedades…
-Seja mais breve, guri! – Interpelei. Apesar de escutar com tremeenda atenção, precisava sair fotagrafar aquele magnífico cenário o mais breve o possível. Quem sabe as fotos obtidas por prazer, não pudessem valer algum dinheiro pra ajudar nas rendas, não é mesmo ?
- Está bem. Estou tentando. Então, aquele pejé, também meu antepassado, foi amaldiçoado por toda a tribo, acaso deixasse sua filha morrer muito jovem ou se casar com alguém fora da tribo.
E, nesse interim, chegou homem branco lá da Europa. Veio trazendo doença, fome, guerra, destruição. E, aquela moça, se apaixonou por um rapaz recém chegado de além mar. Claro o pajé a proibiu. Só que a tribo teve azar muito grande: junto com o branco, veio também a gripe e onte de peste. dizimou metade da população. Nessa altura, como boa parte dos guerreiros já tinha ido embora, ver-se com Tupã, a moça escapuliu e se ajuntou como branco. Mas, como todo mundo, ela também morreu jovem e de peste. Ou seja, meu ancestral foi amaldiçoado duas vezes. Como a maldição deles durará até o Grande Dia que Só Deus Sabe, os descendentes dele sofrem o castigo até hoje, dessa mesma maneira como o senhor viu. sabe o que é o pior? É que mão há como remover e toda manhã me sinto um caco: eles me importunam todo dia.
Relatado o que vi e ponho fé que seja real
Obrigado, sr Novale
Extraído de: http://alemdq.blogspot.com/2008/04/carta-de-relato-loucura-do-guia.html