Andava tranquilamente por aquele dia frio, de começo de inverno. Seu nome? Castor; sua idade? 31. Os tempos de estudo fizeram daquele jovem senhor um cético inveterado, um homem de ciência, que negava a tudo que não tivesse comprovação exata pelos cálculos da sua idolatrada matemática e a descrição de alguma das ciências da matéria. Era ateu por convicção, já que não poderia deixar-se enganar pelos contos que eram trans mitidos de geração em geração, julgando-se inteligente o suficiente para desdizer a existência divina ou espiritual.
Enquanto caminhava, avistou, do meio daquelas casas entrelaçadas coisas que ficaram marcadas em sua mente impolutamente experimentada. Ouviu um gemer estranho, como se um pequeno gato ou algum bebê – afinal, de longe ambos os sons se tornam quase de indecifrável diferença- chorasse por comida, proteção e carinho. Mas, quanto mais andasse por aquelas ruas estranhas, daquele local totalmente desconhecido, o qual tinha escolhido se meter aquela tarde fria e cinzenta – ideal para que as coisas estranhas acontecessem – mais aquele barulho aumentava sua intensidade e menos coisas ele via.
Encontrava-se perturbado. De onde aquele barulho vinha?! Olhava por todos os lados e corria em frente, como se correndo para se afastar de algum provável sótão esquecido embaixo de alguma calçada, ou então, como se querendo se aproximar do ruído para ver o que estava acontecendo para resolver de uma vez aquela situação. O que era mais interessante é que corria, corria, sem direção, sem destino; nada encontrava, nada! E mais e mais se desesperava, temendo ter-se tornado algum esquizofrênico. Mas, pelo que temer, se louco era, que procurasse um médico! Ele resolveria.
No entanto, seu andar em frente contínuo levou-o à um pictórico local perdido no meio de uma enorme cidade, como aquela: Uma rua de terra; um casarão de madeira velha; um pequeno cemitério ao lado esquerdo de Castor; uma pequena capela, ao direito. Os gritos tornavam-se agora, muito mais do que altos, mas ensurdecedores! Tão nítidos que se os outros ao seu redor pudessem escutá-lo também estariam desesperados. Era uma voz feminina, de uma moça de aproximadamente uns 20 anos, que dizia o seguinte:
- Ó senhor, que me prendeste! Por que és ignorante a mim? Que te fiz? Alguém me salve! Me salve! Me salve por favor!
E a moça caía em prantos, de uma dor roída, decabida e desenfreada. Era como se Castor sentisse aquela mesma dor. Era como se fosse inútil lutar, até porque tentou chamar as pessoas que passavam por ele, nenhuma dava-lhe atenção! Que horror! Estava indignado com aquilo. Ele, um senhor, um virtuosi social, sendo ignorado! Fosse certo que suas capacidades mentais eram duvidadas pela população geral, sempre muito crédula do que para ele eram superstições, mas para esse povo, eram verdades inestimáveis. O fato, porém, é que conseguira muito dinheiro trabalhando duro, ao melhor estilo protestante, ‘poupar para ter; o que plantai, colhei’. E, por isso, era deveras respeitado pela alta sociedade, que não via nas opções filosóficas um motivo claro de dissociação de poder. Para ela, apenas uma coisa conta e sempre contará: o valor de um retângulo em papel especial, com um número impresso e os selos republicanos, real ou virtual, prontamente, senhor.
Mas, ser ignorado! Quanto desespero ele tinha por tal fato. Lembrava-o de sua infância. Quando, por ser uma das crianças mais escondidas de seu grupo social, por se dedicar de maneira prodigiosa aos estudos conseguia notas sempre muito superiores dos que as que seus colegas comuns sequer imaginavam, por isso, sendo isolado da turma. Talvez, aí começasse a sua descrença. Afinal, toda a relação que ele conseguia conceber tinha uma ponta de hipocrisia, (nota por amizade, depois, mais pra frente, dinheiro por amizade), que ele jamais conseguiu entender como os seguidores de alguma determinada religião conseguiam seguí-la honestamente fazendo amigos lá e, sem interesse. Para ele, jamais isso existiria e sempre conseguia enxergar alguma corrupção, por mais que fosse ver ‘chifre nas cabeças de cavalo’.
Esses pensamentos giravam pela sua cabeça enquanto adentrava ao casarão. Tinha de se certificar pois o som se tornava cada vez mais forte quando tentava se aproximar daquele local. Não conseguia ouvir mais nada. Seus tímpanos talvez já estivessem quase estourando. Aquela onda sonora atingiu o limiar da dor. Era-lhe tão penoso tal fato que sangue começou a verter dos seus ouvidos. De ambos. E não se continha em simplesmente tentar localizar a moça, mas gritava enlouquecidamente de dor e se atrapalhava derrubando todo mobiliário coberto da casa abandonada.
Até que uma hora, tudo silenciou. O céu tornou-se negro, preparando-se para uma enorme tempestade. A voz que tornara-o surdo, começou a falar suavemente, como se saída de dentro de sua mente:
- Olá, Castor! Olhe pra trás.
Ele olhou. Sentiu todos os seus nervos de uma vez só. Eles alertavam-no para que aquilo não era natural. Sua maldição estava apenas começando. Perdeu a audição aquela tarde, a audição para tudo que fosse material. E agora começava a tentar achar coragem para cegar a si mesmo. Era uma visão horrível: uma moça, de tez amarelo-enegrecida, com os ossos a mostra, aparecia pela janela flutuando. Ela chorava, amarrada de braços abertos ao que parecia ser um enorme cabide. Estarrecido por aquela visão, ele tentava achar forças para falar com aquela entidade, se é que houvesse um meio, se é que tudo não passesse de produto de sua fértil imaginação.
Claro que não era de todo covarde: uma hora, toda a coragem existente dentro de si aflorou e Castor conseguiu proferir as seguintes palavras ao ser que permanecia imóvel:
- Q-quem é-é v-você? – Gaguejava suando frio. Como alguém que realmente tinha culpa no cartório…
-Oras, papai! Como você não se lembra de mim?! Sou sua filha… Ahh, é claro, você nunca se importou comigo. Fui filha de um incesto, sendo abortada pela sua prima. Você nunca soube de minha existência.
Ele estava atônito: quando tinha 11 anos, havia sido praticamente abusado diariamente por sua prima de 16 anos – Catarina- quando viveu com seus tios, dada a morte de seus pais, por um período de um mês, logo da sua chegada. Jamais sequer sonhara que sua prima tivesse ficado grávida dele naqueles tempos, muito menos, abortado. A moça continuou:
- Agora, eu vim cobrar meu direito de viver. Já estive muito tempo na morte. Muito tempo… Você nem faz idéia como é frio o inferno. E como sentimos as mesmas dores de quando morremos. E, imagina eu?! Que fui morta por um cabide! Abortada de maneira irracional… Certo que você não tem culpa… Mas, você jamais parou pra agradecer seus tios pela estadia, ou então para tentar impedir sua prima de te amarrar e de te usar… Né papai?
Aquele muy digno senhor de meia idade, caiu de cócoras e começou a chorar, feito uma criança. Ele, sempre um descrente de tudo, não conseguia conceber tal situação sem que se autodiagnosticasse loucura. No entanto, quando percebia que nada mais escutava além da amarga voz de sua filha do outro mundo, tinha a constatação de seu erro. Tomou a coragem para perguntar:
- Mas, por que veio até mim? Não sou culpado direto pela sua morte, como você mesma reconhece…
- Oras papai?! Não se percebe quando está morto não? Não estranhou que ninguém mais lhe respondia? Volte agora para a sua casa, veja! Vasculhe por tudo… Mas, olhe com atenção redobrada a sua cama. Veja seu corpo jazendo lá. Eu fui incumbida de te levar ao Tribunal. Apesar de ter cometido o maior dos maiores crimes desse mundo – negação divina – acho que sua pena será apenas a perda de todos os sentidos. Você tem sorte. Há alguns daqui que acabam por ter o fim que os ateus esperam para si mesmos: a destruição eterna.
Proecedeu como indicado por sua filha… Andou até seu lar, observou a tudo atentamente. Com muito esforço, conseguiu ver seu corpo morto, jazendo semi-nu na cama. Então, voltou ao casarão. Foi lá ter com sua filha, que lhe indicou o caminho ao outro mundo, lá onde outro espírito o levaria. Bastava a ele, um pouco de fé. Talvez ficasse vagando por toda a eternidade, ou até reencarnar, sem seus sentidos e totalmente desfigurado.