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Arquivos diários:dezembro 1st, 2009

Como isso? Como isso?! Perdido em dose de igualdade via agora os chãos se desintegrarem, céus fenderem, cantos armarem… Aquele senhor de idade corria risco de vida e andava, andava correndo como se nada do que achasse, encontrasse, corrigisse etc. conviesse. E, guturalmente, seus músculos, carnes e peles cansados pediam por um lugar para descansar; era necessária a morte… Ele andava como o fez durante toda sua vida. História de ida, marcada por quanto desnecessário dizer for. Só lhe importava agora era a condição que vivia. Não sabia exatamente o que se passava consigo. Não sabia. Os recursos médicos já não lhe eram suficientes, recorrera até à Fada dos Dentes… Contudo, nada lhe resolvia. O fim de sua vida, como a conhecia, era eminentemente iminente… Só lhe calcava agora o espírito, a alma emanente que nada mais entenderia de nada.

Uma terceira fila de dentes! Todos em forma de cruz, afora um projeto de asas começavam a se formar em seu corpo. O coração batia tão acelerado que o infarte do miocárdio não seria de espantar. Soma na conta um câncer no cérebro… Algo que lhe corroía os miolos, sem, contudo, matá-lo. Era deprimente a animalização que se via nele. Não se sabe como, nem porque, os dentes foram se etrucando até formar um bico de ornitorrinco. Estava ávido, faminto. Toda a humanidade ficou pra trás: Maquiavel, Diderot, Descartes… Provável que apenas Nietzsche, Kafka e os loucos o entendesse.

O mais engraçado: O bicho sofria disso apenas todas as noites, pela manhã, voltava a ser um senhor normal. Bem, pelo menos, não sofria com peso de comer direito… Ele podia ser, ainda que pelo menos às noites, o que ele era e o que todo ser humano insiste negar ser: animal.

Mais do que um mero momento. Aquilo lhe parecia eterno, contudo, o mal se fizesse em apenas 15 minutos. Como se lhe fosse natural. Os olhos avermelhados e raivosos, de pouco dormir; as unhas amareladas, sujas de tempos não ter as cortado. O mundo o tinha quase como um animal. Os cabelos ensebados, e o mais estranho, cruel e pernicioso: ele não se importava com o que pensavam dele; ao contrário: ria-se indecorosamente por dentro daquela falsidade, tanta forma pra quê? Não passavam de crianças dormentes num mundo de tanta crueldade, maldade, dor. Viviam seus pequenos paraísos cerceados por flores, mas fora de lá, eram mal-cheiro, fome, putrefação das carnes, vermes, brutalidade… Tudo enegrecido, cinzentado, sem cor.

Era um sujeito xucro, avesso ao contato social. Um ódio mortal por quem lhe impunha rédeas, como qualquer bicho criado na natureza se sentiria. Tudo que menos queria era dever algum favor. Apesar de seu aspecto, seu orgulho lhe dava moldes de superior. Olhou aquele pedaço de papel com alguns escritos e se perguntou: “será que escrever deste jeito, é ser escritor?”. Parou. Ao lado as pessoas se moviam formigadamente num espaço tremente.

A ignição do motor, a luz, a cor, as janelas fechadas, o calor, os agasalhos, celulares, fones de ouvido, a fumaça na janela, tudo opaco, tudo opaco! E ele escarnecia, por dentro se ria do que via. Gente ali, parada, meras implicações do sistema, lendo Stephanie Meyer, Paulo Coelho, Dan Brown… E as ânsias de fazer parte da realeza: zumbis mal agredecidos! A coletividade dos sentimentos, a brutalidade da própria animalidade de suas vidas mesquinhas e fechdas sufocadas por formas importadas, não por eles projetadas… Aquilo o divertia! E como se libertara em lendo Shakeaspeare, Pessoa, Homero.

Ele olhava a tudo e a todos: análise partidária de um prepúcio, de um início e uma filosofia de Confúcio. O que não vem ao caso. Era destituído totalmente destas pobres formas. Algum dia elas a perseguiram como sombras, porém, heroicamente as sombras lhe tomaram a alma e a luz de sua poderosa razão instrumental se amalgamaram, donde escapou vômito em versos, reflexos.

Uma batida no ônibus. Desculpas! Saí de lado, desonera-se do erro, da culpa, que sequer fora sua. Mas, melhor não arriscar… Pense no que podem pensar… E alguém o olha; uma moça de olhos claros, ruiva. Não que alguma coisa lhe atraísse particularmente nas ruivas, exceto o fato que as amava sobremaneira… Puxou conversa. Papo legal ela tinha.
Mas eram só 15 minutos.

Saiu na estação, correu pegar outro ônibus, subiu, parou. Lotado! Desta vez quase se foi com uma perna pra fora. Ficou na porta, alguém puxa o sinal, o trambolho pára; uma dupla de senhoras desce – insuficiente para aliviair a situação -; acompanha o movimento da porta, depois volta, sobe e vai de encontro ao local deixado pelos volumes dos corpos dos que desceram, pára atrás duma moça, belas formas… Cuidado para não se encostar! – O que os outros vão pensar?!

A escuridão que estava amalgamada com sua alma se sobressai, pensa: “por que não?” A luz lhe retruca com imagens de seu passado. O conflito foi vencido e não se deixaria levar agora, por amor próprio mesmo. Mais do que um mero momento. 15 minutos de uma passagem de eternidade instânea, que nem macarrão Miojo que fica pronto em 3 minutos, você come e fica sustentado por horas. Mais gente desce: é a torrente de pessoas que vai seguindo o fluxo das portas – a única figura que lhe vem à mente é a de um bueiro, cujas águas sujas vão descendo e indo para os esgotos. Tenta se esforçar e lembrar o motivo, mas sabe que dar esta explicação é se tornar igual aos autores que odiava.

Também odiava a filosofia das batatas: metalinguagem é pra fracos, sempre se repetia. Mas tudo bem, o céu ainda estava azul naquela morna manhã de outubro. Era chato quando baixava a neblina… Naquele dia, ainda não tinha acontecido. Era chato porque as pessoas não viam umas às outras andando nas ruas e então elas se tornavam mais elas mesmas – mas só as que andavam nas ruas… As do ônibus, continuavam as mesmas e continuava rindo daquilo, escarnecendo da baixeza humana – sua própria baixeza – que ele via nos outros… Se você pudesse ver aquela mente, veria milhões de comunistas rindo e os mexilhões do mar da Ásia sendo devorados por baleias, que depois se tornariam óleos de acender lâmpadas, feitos à partida pesca baleeira.

E da luz ia pra eletricidade, da eletricidade ia pra fontes de energia, destes para tratados internacionais, destes para mulheres, destas para dinheiro, deste para exploração, desta para comunistas, destes para gargalhadas. Mas o mais subversivo era sorrir, a morte era breve, a virgindade em pessoas de sua idade era algo recriminável, exceto para padres, no meio masculino, o que lhe fazia alguém estupendamente estranho. Pois bem, o ônibus freou mais forte, girou, bateu, metade morreu, metade se feriu. Ele? Continua vivo… Sabe lá Deus como.

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