Como isso? Como isso?! Perdido em dose de igualdade via agora os chãos se desintegrarem, céus fenderem, cantos armarem… Aquele senhor de idade corria risco de vida e andava, andava correndo como se nada do que achasse, encontrasse, corrigisse etc. conviesse. E, guturalmente, seus músculos, carnes e peles cansados pediam por um lugar para descansar; era necessária a morte… Ele andava como o fez durante toda sua vida. História de ida, marcada por quanto desnecessário dizer for. Só lhe importava agora era a condição que vivia. Não sabia exatamente o que se passava consigo. Não sabia. Os recursos médicos já não lhe eram suficientes, recorrera até à Fada dos Dentes… Contudo, nada lhe resolvia. O fim de sua vida, como a conhecia, era eminentemente iminente… Só lhe calcava agora o espírito, a alma emanente que nada mais entenderia de nada.
Uma terceira fila de dentes! Todos em forma de cruz, afora um projeto de asas começavam a se formar em seu corpo. O coração batia tão acelerado que o infarte do miocárdio não seria de espantar. Soma na conta um câncer no cérebro… Algo que lhe corroía os miolos, sem, contudo, matá-lo. Era deprimente a animalização que se via nele. Não se sabe como, nem porque, os dentes foram se etrucando até formar um bico de ornitorrinco. Estava ávido, faminto. Toda a humanidade ficou pra trás: Maquiavel, Diderot, Descartes… Provável que apenas Nietzsche, Kafka e os loucos o entendesse.
O mais engraçado: O bicho sofria disso apenas todas as noites, pela manhã, voltava a ser um senhor normal. Bem, pelo menos, não sofria com peso de comer direito… Ele podia ser, ainda que pelo menos às noites, o que ele era e o que todo ser humano insiste negar ser: animal.