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Como isso? Como isso?! Perdido em dose de igualdade via agora os chãos se desintegrarem, céus fenderem, cantos armarem… Aquele senhor de idade corria risco de vida e andava, andava correndo como se nada do que achasse, encontrasse, corrigisse etc. conviesse. E, guturalmente, seus músculos, carnes e peles cansados pediam por um lugar para descansar; era necessária a morte… Ele andava como o fez durante toda sua vida. História de ida, marcada por quanto desnecessário dizer for. Só lhe importava agora era a condição que vivia. Não sabia exatamente o que se passava consigo. Não sabia. Os recursos médicos já não lhe eram suficientes, recorrera até à Fada dos Dentes… Contudo, nada lhe resolvia. O fim de sua vida, como a conhecia, era eminentemente iminente… Só lhe calcava agora o espírito, a alma emanente que nada mais entenderia de nada.

Uma terceira fila de dentes! Todos em forma de cruz, afora um projeto de asas começavam a se formar em seu corpo. O coração batia tão acelerado que o infarte do miocárdio não seria de espantar. Soma na conta um câncer no cérebro… Algo que lhe corroía os miolos, sem, contudo, matá-lo. Era deprimente a animalização que se via nele. Não se sabe como, nem porque, os dentes foram se etrucando até formar um bico de ornitorrinco. Estava ávido, faminto. Toda a humanidade ficou pra trás: Maquiavel, Diderot, Descartes… Provável que apenas Nietzsche, Kafka e os loucos o entendesse.

O mais engraçado: O bicho sofria disso apenas todas as noites, pela manhã, voltava a ser um senhor normal. Bem, pelo menos, não sofria com peso de comer direito… Ele podia ser, ainda que pelo menos às noites, o que ele era e o que todo ser humano insiste negar ser: animal.

Mais do que um mero momento. Aquilo lhe parecia eterno, contudo, o mal se fizesse em apenas 15 minutos. Como se lhe fosse natural. Os olhos avermelhados e raivosos, de pouco dormir; as unhas amareladas, sujas de tempos não ter as cortado. O mundo o tinha quase como um animal. Os cabelos ensebados, e o mais estranho, cruel e pernicioso: ele não se importava com o que pensavam dele; ao contrário: ria-se indecorosamente por dentro daquela falsidade, tanta forma pra quê? Não passavam de crianças dormentes num mundo de tanta crueldade, maldade, dor. Viviam seus pequenos paraísos cerceados por flores, mas fora de lá, eram mal-cheiro, fome, putrefação das carnes, vermes, brutalidade… Tudo enegrecido, cinzentado, sem cor.

Era um sujeito xucro, avesso ao contato social. Um ódio mortal por quem lhe impunha rédeas, como qualquer bicho criado na natureza se sentiria. Tudo que menos queria era dever algum favor. Apesar de seu aspecto, seu orgulho lhe dava moldes de superior. Olhou aquele pedaço de papel com alguns escritos e se perguntou: “será que escrever deste jeito, é ser escritor?”. Parou. Ao lado as pessoas se moviam formigadamente num espaço tremente.

A ignição do motor, a luz, a cor, as janelas fechadas, o calor, os agasalhos, celulares, fones de ouvido, a fumaça na janela, tudo opaco, tudo opaco! E ele escarnecia, por dentro se ria do que via. Gente ali, parada, meras implicações do sistema, lendo Stephanie Meyer, Paulo Coelho, Dan Brown… E as ânsias de fazer parte da realeza: zumbis mal agredecidos! A coletividade dos sentimentos, a brutalidade da própria animalidade de suas vidas mesquinhas e fechdas sufocadas por formas importadas, não por eles projetadas… Aquilo o divertia! E como se libertara em lendo Shakeaspeare, Pessoa, Homero.

Ele olhava a tudo e a todos: análise partidária de um prepúcio, de um início e uma filosofia de Confúcio. O que não vem ao caso. Era destituído totalmente destas pobres formas. Algum dia elas a perseguiram como sombras, porém, heroicamente as sombras lhe tomaram a alma e a luz de sua poderosa razão instrumental se amalgamaram, donde escapou vômito em versos, reflexos.

Uma batida no ônibus. Desculpas! Saí de lado, desonera-se do erro, da culpa, que sequer fora sua. Mas, melhor não arriscar… Pense no que podem pensar… E alguém o olha; uma moça de olhos claros, ruiva. Não que alguma coisa lhe atraísse particularmente nas ruivas, exceto o fato que as amava sobremaneira… Puxou conversa. Papo legal ela tinha.
Mas eram só 15 minutos.

Saiu na estação, correu pegar outro ônibus, subiu, parou. Lotado! Desta vez quase se foi com uma perna pra fora. Ficou na porta, alguém puxa o sinal, o trambolho pára; uma dupla de senhoras desce – insuficiente para aliviair a situação -; acompanha o movimento da porta, depois volta, sobe e vai de encontro ao local deixado pelos volumes dos corpos dos que desceram, pára atrás duma moça, belas formas… Cuidado para não se encostar! – O que os outros vão pensar?!

A escuridão que estava amalgamada com sua alma se sobressai, pensa: “por que não?” A luz lhe retruca com imagens de seu passado. O conflito foi vencido e não se deixaria levar agora, por amor próprio mesmo. Mais do que um mero momento. 15 minutos de uma passagem de eternidade instânea, que nem macarrão Miojo que fica pronto em 3 minutos, você come e fica sustentado por horas. Mais gente desce: é a torrente de pessoas que vai seguindo o fluxo das portas – a única figura que lhe vem à mente é a de um bueiro, cujas águas sujas vão descendo e indo para os esgotos. Tenta se esforçar e lembrar o motivo, mas sabe que dar esta explicação é se tornar igual aos autores que odiava.

Também odiava a filosofia das batatas: metalinguagem é pra fracos, sempre se repetia. Mas tudo bem, o céu ainda estava azul naquela morna manhã de outubro. Era chato quando baixava a neblina… Naquele dia, ainda não tinha acontecido. Era chato porque as pessoas não viam umas às outras andando nas ruas e então elas se tornavam mais elas mesmas – mas só as que andavam nas ruas… As do ônibus, continuavam as mesmas e continuava rindo daquilo, escarnecendo da baixeza humana – sua própria baixeza – que ele via nos outros… Se você pudesse ver aquela mente, veria milhões de comunistas rindo e os mexilhões do mar da Ásia sendo devorados por baleias, que depois se tornariam óleos de acender lâmpadas, feitos à partida pesca baleeira.

E da luz ia pra eletricidade, da eletricidade ia pra fontes de energia, destes para tratados internacionais, destes para mulheres, destas para dinheiro, deste para exploração, desta para comunistas, destes para gargalhadas. Mas o mais subversivo era sorrir, a morte era breve, a virgindade em pessoas de sua idade era algo recriminável, exceto para padres, no meio masculino, o que lhe fazia alguém estupendamente estranho. Pois bem, o ônibus freou mais forte, girou, bateu, metade morreu, metade se feriu. Ele? Continua vivo… Sabe lá Deus como.

– Já queria te dizer desde já que tudo o que você escreve, deixou de escrever ou pensar, seus amores, desamores, pesares, despesares, o caralho a quatro! Enfim, tudo pra mim é um puta lixo!
-Ahh, seu grosso! nem vem, viadinho! Você nem conseguiu me possuir direito!
– Ah é?! Quem regulava aqui era você, não era eu! Puta! Pensa que eu não vi você andando por aí, de conversa mais chegada como o Thiago???
– Quem é você? Eu dou pra quem quiser! E não é namorado quem vai me impedir!
-Você acha mesmo ainda que vai ficar com a geral e depois continuar namorando?
– Acho! E tenho dito! Veado corno! Você nem vai conseguir achar outra guria pra você, se é o que você quer saber!
– É, bem, nunca mais vou achar uma guria COMO VOCÊ!

_________
No outro lado da cidade…

– Oi amor, acho que não tá dando mais…
-Xii… Conheço este tipo de conversa… Mas por que não tá dando?
– É que você e eu somos muito diferentes: você tem essa mania de criticar tudo que vê, tudo que existe. De se entender a si mesmo. Filosofia…
– Ah… Mas… Eu parei, não critico mais tanto o céu ou o inferno. Enfim, eu apenas sou um cara toalmente estranho neste mundo e SEI disto, ao contrário de você, sua metida!
– Metida?! Tá, se você acha assim… Só acho que você devia se enxergar melhor no espelho. Seu nada, seu bosta, seu idiota! Você não entende?!
– Falou a puta, a senhora dos cabelos encaracolados. Independente: nem sabe quem é!
– É, talvez não saiba mesmo… Só quero atingir, só queria que você quisesse atingir à perfeição. É que eu te amo tanto… Você tem que ser O melhor!
– Mas eu não consigo! Não consigo ter estes teus modos de realeza. Eu sou um pobre mortal, um camponês, um campesino que tem pressa. Alguém que pensa mais no preço e no tempo que na forma!
– Viu, somos muito diferentes! Você ainda acha que pode dar certo?
– Creio sim! Aprenda com a natureza! Não percebe que os animais preferem os outros da mesma espécie o mais diferentes o possível de si próprios para aumentar a variabilidade genética?
– É, pode até ser, mas com humanos não é isto que é. Você anda com quem se sente bem.
– E isto te enfraquece! Não percebe que são nos diálogos que mais aprendemos?
– É, Mas debates são apenas bons entre amigos; não entre quem era suposto a te fazer feliz.
– Mas o que é felicidade? É simplesmente se manter na sua zona de conforto intelectual? É simplesmente ter alguém que corresponda às suas expectativas de bom, nobre, superior e que te faça feliz?
– É.
– Teu plano de vida é exatamente igual ao da mediocridade das pessoas…
– Mas eu quero ser normal! Eu quero passar desapercebida…
– Pois é. Você não pode. Você NÃO TEM COMO passar desapercebida, você é diferente. Necessariamente, as pessoas irão te notar.
– Mas eu não quero ser notada, se for, quero ser vista como alguém normal, entende?
– Entendo, mas isto é negar quem você é.
– Enfim… Mudando de assunto, queria tanto que você fosse alguém melhor… Que buscasse à perfeição…
– Mas isto não posso mesmo! Eu posso perseguir o equilíbrio. Me tornar alguém equilibrado, não perfeito. Não era você quem vivia falando de maturidade? Então, maturidade tem a ver mais com ponderamento e bom senso que com perfeição. Posso sim, buscar a melhoria contínua em prol do meu equilíbrio, mas nunca, em hipótese alguma, tenho o direito de buscar a perfeição!
– Ahhh, deixa quieto, acho que você não me entendeu… Eu sei que é impossível ser perfeito, mas tem que tentar…
– Não, nem tentar! E se você quer saber, eu te vi andando com o tal de Felipe estes tempos… Vocês andam muito achegados!
– É tudo o que ele me diz me deixa melhor… É tão bom!
– Pois é… Então… Vai, enfia este seu perfeccionismo no teu rabo!
E suma da minha vida duma vez por todas! Tome meu caderno de escritos que você me deu! Fique contigo, antes que lho queime!

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Nos porões de algum lugar da zona leste…

– Ai…! Que dor! pare!
– Toma! Toma sua vagabunda! A sua mãe foi pro saco, agora você tá sofrendo. Quem mandou? Quem mandou você ir atrás doutros caras? Agora toma!
– Ai! Para de me estapear! Eu não mereço isto não!
– Toma mais uma e cala a boca, vadia! Lugar de mulher é calada em casa!
(entra a mãe)
– Pare já com isto, seu desgraçado! Assim você mata a menina!
– Cale a boca você também, sua coisa! Nunca foi mãe de verdade! Vivia na zona! Sua desgraçada! O pai vivia bebum por tua causa! Toma! Toma você também!
(retira um punhal da cintura)
– AAaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah! (a mãe dele cai em choro, sangrando)
– Agora, vou vortá nonde eu tava!
– Não! Com a faca não! (E a lâmina rasgava cirurgicamente as carnes e as pelas da moça, aos poucos, um prazer sádico o invadia. Pobre moça!)AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!
– Humpf, ela teve o que merecia!
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Não muito distante, na zona norte…

– O que você está fazendo? Pare! Pare! Já!
– Ahh, não minha tia, você sabe como eu sempre fui amarrado em ti; você sabe!
– mas isso não te dá o direito disso… Pare! ahnn! Pára… Ahnnn! Isso! Continua… Vai, já que você quer… Vai…. ahhnnnn… Toda tua!
(nove meses depois)
– Ueeeeeeeeeeeeeh! Ueeeeeeeeeeeeeeeeeeeh!
– Que fazemos com este criança…?
(Nunca mais a se viu)

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Enquanto isto, um mendigo andava. Um pobre marginal pensava e olhava a Lua! Como é doce o ar desta cidade em setembro… Nada melhor que o céu, a rua, as estrelas!

Pérfido. Vil. Mesquinho. Insano. Era tudo aquilo! Como podia? Como podia? Via agora as mãos rubrescentes, o calor que sentia daquele líquido imanente escorrendo pelas suas mãos calejadas. Concorriam as dores fantasmagóricas ancestrais com as vias de gozo descomunal. Tentava desesperadamente limpara aquelas carnes: era o último recurso que poderia lhe livrar de seu mau agouro. Era livre. Libertara-se de tudo, contudo todo este livre-arbítrio havia lhe trazido morte, desgraça, destruição. Quem era? Isto já não lhe importava mais. Nem importa ao caro leitor. Aliás, suma! Este território não é para pessoas com mente frágil…

Corre o boato de que a morte lhe era única solução cabível. Tudo que fizera, aquela criatura doce e angelical não tinha perdão. Nem com mil céus, mil terras; demasiadamente superior, inconsubistancialmente poderosa. Incomensuravelmente ela… E tinha asas! Como… Era um bastardo, um animal qualquer, sem rédea, sem trégua, sem classe, sem saída, sem luz. Senhor, aquele sangue rubro escorrendo em suas mãos?!
Ele era aturdido pelo poder que aquilo representava: claro, de modo falso, sentia-se uma anomalia da natureza. Os ossos, tão frágeis, tão brancos, esfarelavam-se em suas mãos. Como? Que tipo de constrangimento aquele pobre ser teria lhe feito? Nada.

Estava subnutrido, só podia ser isto.

As questões de mar e vento, as cordas, os sofrimentos, as passagens, as paragens, os campos, as andanças, os quantos tempos, os inumeráveis fingimentos, os anos de cumplicidade, as grades, a amizade, as pessoas da vizinhança, os galpões de madeira podre, a imensidão do céu, o canto dos pássaros, os sorrisos das belas moças…TUDO, absolutamente, Inclusive o Tempo, parou naquele momento!

Era dolorido perceber, era complicado entender, era demasiado sôfrego, era por demais ébrio e cambaleante, era um enigma do ser – um engima do jamais ser; o canto que ouvia, jamais veria novamente.

Meu Deus, o sangue lhe escorria pelas mãos! E a sociedade burguesa nem percebeu: ela tinha produzido aquilo… Meu Deus, o mendigo matou um pombo e veja as pessoas horrorizadas! Que espetáculo fúnebre. Tinha fome, a consciência não lhe pesou como a de um falso ambientalista.

Aos tempos perdidos em construções e lamentos, a vida de sofrimentos a havia moldado, sem dor nem ressentimentos. Era impiedosa, como o árido tempo, como a sorte daqueles que vivem de lamento, fastigando a dor longe daquilo que dá prazer e desconsiderando toda e qualquer forma de fomento. Agora, ela se perdia, escondida, tirada, vazia. Como nunca jamais se sentira, a sua história maligna, agora pesava sobre seus ombros, em simples ardor languidescente, no desejo nunca correspondido.

Totalmente estrebuchada; rasgada… Numa escura sala isolada do tempo, a moça chorava, chorava, chorava, como se esperasse por sua liberdade, ou que tivesse vida em cada choro, cada lamento. Se assim não fosse, se sentiria perdida, vazia,  morta. E tudo quanto ouvia não passavam de grunhidos de ratos que a permeavam de sua urina. Alguém entrou. Energúmeno, gritou:

-Pare de choramingar sua vadia! Aqui você tem tudo que precisa pra viver… Casa, comida e roupa. Tem até espaço pra escrever suas merdas! Em troca, recebemos o quê??? Apenas choro, soluço e lágrimas.

Ele a acertou um grande tapa.

A moça, fatigada pelo local insalubre, fraca pela alimentação torpe, sombria pela fraca luz, carcomida pelos vermes interiores, deprimida por ter perdido a liberdade, não conseguiu revidar a altura. Apenas olhou bem firme nos olhos dele e disse, com uma voz bem estranha, totalmente transfigurada daquela que ela miava chorando pelos cantos:

-Não adianta, velho, você não vai me foder. Minha alma é impiedosa com meus inimigos e minha espada está pronta pra matar você.

Ela apenas olhou-o. O senhor começou a sentir um desconforto na garganta… Gritou aos seus 3 filhos: “venham! Amarrem ela já!” Foi o que fizeram. Trancaram-na no porão novamente. Ela, enquanto isso, ria estrondosamente. O ancião, ensimesmado com aquela dor, pensando em seus botões… Foi direto ao médico. Diagnóstico: câncer na graganta, do tipo maligno, já que o benigno, não doía. Internado. Dois ou três meses depois, morto.

A imagem que assim se via, atraía a atenção de multidões. Era algo estampado nos céus, compactuando com trilhares de visões apocalípticas feitas pelos séculos. Sentiam-se desconfortáveis enormememente Com aquilo. O que era? Vida? Morte? Solução? Destruição? Alucinação? Realidade? Ninguém sabe. Fica apenas a imagem.

Andava tranquilamente por aquele dia frio, de começo de inverno. Seu nome? Castor; sua idade? 31. Os tempos de estudo fizeram daquele jovem senhor um cético inveterado, um homem de ciência, que negava a tudo que não tivesse comprovação exata pelos cálculos da sua idolatrada matemática e a descrição de alguma das ciências da matéria. Era ateu por convicção, já que não poderia deixar-se enganar pelos contos que eram trans mitidos de geração em geração, julgando-se inteligente o suficiente para desdizer a existência divina ou espiritual.

Enquanto caminhava, avistou, do meio daquelas casas entrelaçadas coisas que ficaram marcadas em sua mente impolutamente experimentada. Ouviu um gemer estranho, como se um pequeno gato ou algum bebê – afinal, de longe ambos os sons se tornam quase de indecifrável diferença- chorasse por comida, proteção e carinho. Mas, quanto mais andasse por aquelas ruas estranhas, daquele local totalmente desconhecido, o qual tinha escolhido se meter aquela tarde fria e cinzenta – ideal para que as coisas estranhas acontecessem – mais aquele barulho aumentava sua intensidade e menos coisas ele via.

Encontrava-se perturbado. De onde aquele barulho vinha?! Olhava por todos os lados e corria em frente, como se correndo para se afastar de algum provável sótão esquecido embaixo de alguma calçada, ou então, como se querendo se aproximar do ruído para ver o que estava acontecendo para resolver de uma vez aquela situação. O que era mais interessante é que corria, corria, sem direção, sem destino; nada encontrava, nada! E mais e mais se desesperava, temendo ter-se tornado algum esquizofrênico. Mas, pelo que temer, se louco era, que procurasse um médico! Ele resolveria.

No entanto, seu andar em frente contínuo levou-o à um pictórico local perdido no meio de uma enorme cidade, como aquela: Uma rua de terra; um casarão de madeira velha; um pequeno cemitério ao lado esquerdo de Castor; uma pequena capela, ao direito. Os gritos tornavam-se agora, muito mais do que altos, mas ensurdecedores! Tão nítidos que se os outros ao seu redor pudessem escutá-lo também estariam desesperados. Era uma voz feminina, de uma moça de aproximadamente uns 20 anos, que dizia o seguinte:

– Ó senhor, que me prendeste! Por que és ignorante a mim? Que te fiz? Alguém me salve! Me salve! Me salve por favor!

E a moça caía em prantos, de uma dor roída, decabida e desenfreada. Era como se Castor sentisse aquela mesma dor. Era como se fosse inútil lutar, até porque tentou chamar as pessoas que passavam por ele, nenhuma dava-lhe atenção! Que horror! Estava indignado com aquilo. Ele, um senhor, um virtuosi social, sendo ignorado! Fosse certo que suas capacidades mentais eram duvidadas pela população geral, sempre muito crédula do que para ele eram superstições, mas para esse povo, eram verdades inestimáveis. O fato, porém, é que conseguira muito dinheiro trabalhando duro, ao melhor estilo protestante, ‘poupar para ter; o que plantai, colhei’. E, por isso, era deveras respeitado pela alta sociedade, que não via nas opções filosóficas um motivo claro de dissociação de poder. Para ela, apenas uma coisa conta e sempre contará: o valor de um retângulo em papel especial, com um número impresso e os selos republicanos, real ou virtual, prontamente, senhor.

Mas, ser ignorado! Quanto desespero ele tinha por tal fato. Lembrava-o de sua infância. Quando, por ser uma das crianças mais escondidas de seu grupo social, por se dedicar de maneira prodigiosa aos estudos conseguia notas sempre muito superiores dos que as que seus colegas comuns sequer imaginavam, por isso, sendo isolado da turma. Talvez, aí começasse a sua descrença. Afinal, toda a relação que ele conseguia conceber tinha uma ponta de hipocrisia, (nota por amizade, depois, mais pra frente, dinheiro por amizade), que ele jamais conseguiu entender como os seguidores de alguma determinada religião conseguiam seguí-la honestamente fazendo amigos lá e, sem interesse. Para ele, jamais isso existiria e sempre conseguia enxergar alguma corrupção, por mais que fosse ver ‘chifre nas cabeças de cavalo’.

Esses pensamentos giravam pela sua cabeça enquanto adentrava ao casarão. Tinha de se certificar pois o som se tornava cada vez mais forte quando tentava se aproximar daquele local. Não conseguia ouvir mais nada. Seus tímpanos talvez já estivessem quase estourando. Aquela onda sonora atingiu o limiar da dor. Era-lhe tão penoso tal fato que sangue começou a verter dos seus ouvidos. De ambos. E não se continha em simplesmente tentar localizar a moça, mas gritava enlouquecidamente de dor e se atrapalhava derrubando todo mobiliário coberto da casa abandonada.

Até que uma hora, tudo silenciou. O céu tornou-se negro, preparando-se para uma enorme tempestade. A voz que tornara-o surdo, começou a falar suavemente, como se saída de dentro de sua mente:

– Olá, Castor! Olhe pra trás.

Ele olhou. Sentiu todos os seus nervos de uma vez só. Eles alertavam-no para que aquilo não era natural. Sua maldição estava apenas começando. Perdeu a audição aquela tarde, a audição para tudo que fosse material. E agora começava a tentar achar coragem para cegar a si mesmo. Era uma visão horrível: uma moça, de tez amarelo-enegrecida, com os ossos a mostra, aparecia pela janela flutuando. Ela chorava, amarrada de braços abertos ao que parecia ser um enorme cabide. Estarrecido por aquela visão, ele tentava achar forças para falar com aquela entidade, se é que houvesse um meio, se é que tudo não passesse de produto de sua fértil imaginação.

Claro que não era de todo covarde: uma hora, toda a coragem existente dentro de si aflorou e Castor conseguiu proferir as seguintes palavras ao ser que permanecia imóvel:

– Q-quem é-é v-você? – Gaguejava suando frio. Como alguém que realmente tinha culpa no cartório…

-Oras, papai! Como você não se lembra de mim?! Sou sua filha… Ahh, é claro, você nunca se importou comigo. Fui filha de um incesto, sendo abortada pela sua prima. Você nunca soube de minha existência.

Ele estava atônito: quando tinha 11 anos, havia sido praticamente abusado diariamente por sua prima de 16 anos – Catarina- quando viveu com seus tios, dada a morte de seus pais, por um período de um mês, logo da sua chegada. Jamais sequer sonhara que sua prima tivesse ficado grávida dele naqueles tempos, muito menos, abortado. A moça continuou:

– Agora, eu vim cobrar meu direito de viver. Já estive muito tempo na morte. Muito tempo… Você nem faz idéia como é frio o inferno. E como sentimos as mesmas dores de quando morremos. E, imagina eu?! Que fui morta por um cabide! Abortada de maneira irracional… Certo que você não tem culpa… Mas, você jamais parou pra agradecer seus tios pela estadia, ou então para tentar impedir sua prima de te amarrar e de te usar… Né papai?

Aquele muy digno senhor de meia idade, caiu de cócoras e começou a chorar, feito uma criança. Ele, sempre um descrente de tudo, não conseguia conceber tal situação sem que se autodiagnosticasse loucura. No entanto, quando percebia que nada mais escutava além da amarga voz de sua filha do outro mundo, tinha a constatação de seu erro. Tomou a coragem para perguntar:

– Mas, por que veio até mim? Não sou culpado direto pela sua morte, como você mesma reconhece…

– Oras papai?! Não se percebe quando está morto não? Não estranhou que ninguém mais lhe respondia? Volte agora para a sua casa, veja! Vasculhe por tudo… Mas, olhe com atenção redobrada a sua cama. Veja seu corpo jazendo lá. Eu fui incumbida de te levar ao Tribunal. Apesar de ter cometido o maior dos maiores crimes desse mundo – negação divina – acho que sua pena será apenas a perda de todos os sentidos. Você tem sorte. Há alguns daqui que acabam por ter o fim que os ateus esperam para si mesmos: a destruição eterna.

Proecedeu como indicado por sua filha… Andou até seu lar, observou a tudo atentamente. Com muito esforço, conseguiu ver seu corpo morto, jazendo semi-nu na cama. Então, voltou ao casarão. Foi lá ter com sua filha, que lhe indicou o caminho ao outro mundo, lá onde outro espírito o levaria. Bastava a ele, um pouco de fé. Talvez ficasse vagando por toda a eternidade, ou até reencarnar, sem seus sentidos e totalmente desfigurado.

Eis, que me pego em sono. De um sono profundo onde as coisas mais fantásticas podem acontecer. Converso com minha bela pelo computador, seu rosto começa a se projetar lentamente a partir de sua foto, mas vem em tamanho real… É um sonho: viagem instantânea!

Eis que ela vem e vem, mais e mais perto. Aqueles olhos certos, a boca úmida e languidescente, Respiração afoita e um desejo incomensurável de partir para… Bem, isso não te importa leitor. O que mais me espantou, é que ela como assim que veio, voltou. Sonho meu, de assonância, que se perdeu e se obliterou. Bela, bela, te espero e te quero com toda força de uma paixão que ainda não vingou…

Hmmm… Como?!

E aquele ser observava a todos com um ar de superioridade, ainda que girasse inconscientemente. A sua vitória, parecia que ainda viria.

O céu, com um pouco de antipatia, parecia começar a mudar. Uma chuva vinha, aliás, uma chuva não apenas: uma enorme tempestade de raios. Algo sem paralelos anteriores na história daquela humilde cidade, que parecia mais um pobre vilarejo do que qualquer outra coisa. As pessoas começaram a correr Desesperadas para as suas casas, com o objetivo mais que humilde de se proteger do que viria.

Alguém, perdido na multidão, resolveu jogar uma pedra naquele mendigo maluco no intuito de que parasse de girar afinal. Mas a pobre pedra simplesmente se fragmentou. E o que aconteceu daqui em diante, fez com que a boca temerosa que me contou tais fatos, não quisesse se identificar….

Aquele ser parou então de girar, seu corpo, parecia ser mais leve que o ar. Caiu exausto, no entanto, levitou, levitou como Emily Rose fazia enquanto dormia, segundo os relatos e o filme. Como se uma força maior houvesse se apoderado dele. Começou a gritar do nada… Como se desse ordem ao mundo natural ao seu redor, porém, suas palavras eram inteligíveis! As primeiras coisas que se ouviu dizer pela multidão e que se distinguiu foram:

-Chuva, pare! – e ao mesmo tempo a chuva parou.

As pessoas olharam abismadas àquele ser… Era algo que eles jamais haviam visto antes. Seria o fim do mundo? Talvez fosse pior: estavam mortas no inferno e não sabiam que aquele era o diabo? Bem, ainda poderia ser alguma daquelas alucinações coletivas, atestando que a água da cidade fora envenenada e que as pessoas poderiam morrer a qualquer instante.

No entanto, uma voz atrás de uma tela falou calmamente, algo que foi repetido pelo ‘girando’ (já que não tinha nome, chamá-lo-ei assim.). Os dizeres eram: (e disso o(a) interlocutor(a) anônimo tinha certeza, pois havia transcrito o texto).

– Oh cidadãos da pacata Vila Poiá ! Vim aqui vos pedir humildemente o controle de vossa vila para que possamos passar por isso sem guerras. Quero, um exército, um bom exército, para que entremos em guerra contra os senhores do mundo. Quero que compreendam que essa é o único modo de salvação de vocês, caso contrário, todas as pragas do mundo, que estão sob o meu controle, cairão sobre vós. Não esperem por piedade: sou quase uma divindade; e, vocês são apenas pobres vermes, esperando pela morte que virá impiedosa e imortal para levá-los. Unam-se a mim e conheçam uma vida de glórias, lutem contra mim e sua história será desastrosa!

Automaticamente, os cidadãos desprendidos da razão que antes lhes eram inerentes, hipnotizados por aquela loucura, saíram de suas casas e se dirigiram até o local daquele ser estranho. Abriu-se espectro no horizonte, uma espécie de passagem. Não se sabe, na verdade, para onde ia. Uma ruptura no tempo e espaço, pelo qual toda a população passou. Menos quem me contava isso.

Perguntei-lhe então sobre como teria ficado livre daquilo. Assim me respondeu:

– Olha, se soubesse, gostaria muito de compartilhar com todo o povo, para que ele não volte e não faça isso novamente. Aquele ser me pareceu um monstro sob as carnes humanas… Aliás, que talvez nem sejam humanas!

-||-

Fui há algum tempo atrás da tal vila. A encontrei e não havia sequer sinal de desertificação. Perguntei sobre o tal demônio que girava. Ninguém queria comentar sobre tal fato. Até uma senhora, de idade bem avançada, começou a dizer:

– Na verdade, houve um maluco que disse ter visto algum demônio rodopiando pela praça da cidade. Mas ninguém de fato o viu. Disse também que aquele ser não era desse mundo, que tinha levado todo mundo para o inferno… Um monte de baboseiras desse tipo. Essa pessoa foi expulsa daqui e hoje vaga pelo mundo contando essa falsa história, que parece ter sido análoga a um seriado desses que passam pela madrugada.

introdução

Era escuro. Mais um daqueles dias chuvosos nos quais se faz questão de sobreviver de olhos fechados afim de a paisagem não nos tente para que o a morte é capaz de fazer. Nesse espaço cinzento, convidativo para uma das canções de Agalloch, alguém girava o corpo sobre seu centro de gravidade, numa velocidade relativamente baixa. Girava toscamente. Aos olhos das outras pessoas, talvez uma criança girasse mais rápido e mais eficientemente que aquele sujeito.

Vestindo com um kimono samurai, usando cabelos longos e numa cor indefinida, causava risos para todos os que passavam ali naquele exato momento. Mas ele não ligava. Como se algo o chamasse, talvez sua repulsa pelo bem-estar social ou algo mais específico. Talvez fosse esquisofrênico e as vozes que acompnhavam o mandassem executar tal ato vexatório para si mesmo, de maneira tal que assim elas o deixariam em paz, não o ferindo – sequer o matando. E caiam na gargalhada todos que por ali passavam.

Sabe-se que a esquizofrenia é caracterizado por uma lesão no cérebro, que não é me dada lembrar exatamente em qual parte do órgão, mas seja lá qual for, não se pode desconsiderar que mesmo se sabendo o tratamento, mesmo sabendo-se o que a causa, a ‘saúde’, não chegou a todos. Quando chega, na verdade é uma pseudo-saúde, pois sempre há o eminente perigo de se ficar doente, ainda mais abafando outra doença… Isso, no entanto não vem de encontro ao caso.

O que importa é que aquele mendigo estranho não parava de rodopiar. Aos poucos, no entanto, algo foi-se acontecendo. Não se sabe o nome dele, nem qual o país de origem, sua língua, no entanto, parecia ser num dialeto incompreensível aos ouvidos de qualquer ser humano cuja linguagem seja uma descendência latina. Ele parecia cantar aquilo, como se fossem versos, versos de alto piedade ou de tristeza, versos como de oração. E assim foi indo, passavam as horas, aumentando a frqüência dos giros, acompanhado pelo aumento de sua velocidade angular, em um movimento circular parcialmente uniforme, que só não poderia ser assim considerado devido aos paralelepípedos naquela rua. Afinal, estava-se no final do século XIX, início do XX e eles não tinham sequer noção bem definida de uso de hidrocarbonetos.

Aquela atmosfera, fria. Poucas pessoas na rua, o céu cada vez mais encoberto, as folhas voando aos poucos. Como se dançassem ao som daqueles versos entoados, ao sentido do vento que soprava a partir da energia desprendida naquele movimento….

– Não! Que horror! – Uma pequena camponesa que ali passava, gritou. As veias do nariz daquele sujeito haviam acabado de ser rompidas. Começou a esvoaçar sangue por todo o raio da circunferência formado pelos seus braços abertos, mais até o alcance de aproximadamente uns 5 metros. A quantidade de sangue começou a aumentar vagarosamente, como se a quantidade daquele líquido fosse aumentando aos poucos… Em uma macabra projeção aritmética.